Bebi a água que restava no copo. Bastaram alguns minutos para que ambiente se tornasse sufocante. A água, já refém do mormaço, legitimava o buraco afligente no qual eu havia me metido. Derek entrou na sala com o braço esquerdo entrelaçado ao direito de Eliandra, pisando sólida e maquinalmente. Dir-se-ia uma marcha forçosamente dândi. Restou-me questionar em silêncio: por quê? Fui ao encontro deles de mãos vazias. Meu semblante, provavelmente, não era dos melhores. _ Vejo que se acertaram. _ Sim, meu caro sonhador. Peguei a primeira que me deu bola – disse, sorrindo com o canto da boca num esgar de cumplicidade que pareceu encantar Eliandra. _ Ainda bem que eu não perdi muito tempo com você, não é mesmo, Mister Corocoxó? A felicidade está em não se menosprezar por causa dos arrogantes desta vida. _ Meu bem! Não seja deselegante com o dono da festa! Mesmo que ele mereça tapa na lata. Passei os olhos pela sala com desalento. “Por que dar uma festa tão cheia de pompa? Para agradar os meus inimigos?”. Recobrei-me a tempo de não cometer uma indelicadeza. _ Eliandra, exigir compreensão não significa ser arrogante. É justamente o oposto. Exijo porque sei que a compaixão de uma mulher tão bela como você é um fortificante espiritual. Mas agora vejo que me precipitei. Você não tem inteligência suficiente para eliminar esta poderosa tendência à futilidade e ao escárnio que a faz parecer tanto com uma prostituta orgulhosa. _ Sei que você quis apenas provocar riso com sua observação sem pé nem cabeça – repreendeu-me Derek. _ Certamente. Não surtiu o efeito desejado. Perdoem-me. _ Está tudo bem, vamos comer e beber! _ Está tudo bem, uma ova! Ele me ofendeu e eu exijo que a polícia seja informada. _ O quê – indignou-se Derek, o centroavante titular do Osasco Futebol Clube. Talvez tenha razão! Podemos acabar com esta festa! _ Todos estão aqui por um motivo, não é? Faz parte do jogo - provoquei. Quem perde? Quem ganha? Acho que é melhor descobrir sem a presença de policiais. _ João está certo, Derek. É melhor nos divertirmos. _ Isso, aproveitem a festa. Pensem nos motivos bons e alegres. _ O principal motivo de freqüentar festas de smoking é lucrar no futuro. Gostaria de estar vendo um filmão no cinema - redarguiu Derek, visivelmente irritado. Olhei com desinteresse o rosto de Eliandra. Era bonito como os rostos que adquirem uma espécie de serenidade artificial. Atraentes, porém, capazes de arruinar pessoas. Pedi licença e fui ao bar instalado no jardim. Há muitos meios de se chegar a um objetivo. Qual seria, porém, o objetivo de quem observa o tempo como a indissolubilidade da existência? Por que pensar sobre o que se parece muito com uma tentativa inútil de dar sentido ao vaguear despropositado de uma observação perene em sua fugacidade? Sentei-me à mesa e olhei a figueira nova cujas folhas quase amarelecidas – já estavam prestes a cair - roçavam o canteiro verdejante no mesmo momento em que impediam os últimos raios de sol de serem apreciados por meus olhos. Sinto que não preciso de dinheiro nenhum para alcançar a paz de espírito que tantos crentes almejam. Acostumei-me, no entanto, a pensar automaticamente em gastar nisto ou naquilo. Só por causa disso, sinto-me distante da verdade. Tenho a sensação de não existir realmente. Sou pior que um andróide. Por que não estou aqui nem ali. Eu inexisto como pessoa. Sou um monte de carne ambulante que discorda da maioria das coisas que faz. Meus objetivos têm sido meras abstrações transformadas em realidade pela indústria do entretenimento. _ O que está fazendo sozinho aqui, João? _ Esperando. Esperando que algo aconteça nesta bosta. _ E o que pode acontecer numa festa em que até os cães são revistados? _ Tem razão. Já vou circular por aí. Obrigado, Múrcio. _ Não há de quê, caro amigo! Engraçado, quando estava ferrado até os dentes, ninguém me chamava de caro amigo. Era sempre um grunhido mal-humorado. Só à noite me sentirei à vontade. Até lá, resta imaginar a eternidade como um salão de festas cheio de pessoas completamente diferentes de mim.
Escrito por cristiano às 01h25
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