banzeiro


Teoria sobre a vontade deitar e dormir sem senso crítico

Preciso renascer.

Macacos caem direto da Lua.

Serpentes feitas de arco-íris

me perseguem em momentos inusitados.

A cabeça parece que vai explodir.

Eu não aguento mais.

Não aguento mais.

É muita confusão, não sei em quem acreditar,

não sei em que acreditar,

tenho medo de mim,

tenho medo de enfrentar as imagens que tenho de mim.

Está tudo tão desarrumado, mas pra que exagerar?

 

Às vezes gostaria de estar bem longe,

sozinho, com os pés e as mãos enterrados na lama fresca

e o ventre apoiado na grama fresca.

Gostaria também de, neste momento, encostar

o ouvido na superfície de todas as vibrações

e emulações naturais.

 

Uma noite de dessas sonhei que conversava com T.S. Elliot,

um poeta que nunca li, só ouvir falar nos filmes.

E acordei com vontade de viajar no tempo,

conhecer  figuras

como se conhece a sede.

 

Mas ainda estou neste delírio adolescente.

Ainda me sinto extremamente autoconfiante.

Vejo pontes,

algumas melodias da calma,

desejo de continuar.

 

Pretendo dormir para recuperar as forças.

Espero que todos estejam bem,

tentando,

batalhando pra evitar o pior.

 

Por que o pior do mundo está vivo,

circulando.

Pilotando um rodamoinho.

Não é pra rir, não. É pra pensar.  



Escrito por cristiano às 01h53
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Bebi a água que restava no copo. Bastaram alguns minutos para que ambiente se tornasse sufocante. A água, já refém do mormaço, legitimava o buraco afligente no qual eu havia me metido. Derek entrou na sala com o braço esquerdo entrelaçado ao direito de Eliandra, pisando sólida e maquinalmente. Dir-se-ia uma marcha forçosamente dândi. Restou-me questionar em silêncio: por quê?  

Fui ao encontro deles de mãos vazias. Meu semblante, provavelmente, não era dos melhores.

_ Vejo que se acertaram.

_ Sim, meu caro sonhador. Peguei a primeira que me deu bola – disse, sorrindo com o canto da boca num esgar de cumplicidade que pareceu encantar Eliandra.       

_ Ainda bem que eu não perdi muito tempo com você, não é mesmo, Mister Corocoxó? A felicidade está em não se menosprezar por causa dos arrogantes desta vida.

_ Meu bem! Não seja deselegante com o dono da festa! Mesmo que ele mereça tapa na lata.

Passei os olhos pela sala com desalento. “Por que dar uma festa tão cheia de pompa? Para agradar os meus inimigos?”. Recobrei-me a tempo de não cometer uma indelicadeza.

_ Eliandra, exigir compreensão não significa ser arrogante. É justamente o oposto. Exijo porque sei que a compaixão de uma mulher tão bela como você é um fortificante espiritual. Mas agora vejo que me precipitei. Você não tem inteligência suficiente para eliminar esta poderosa tendência à futilidade e ao escárnio que a faz parecer tanto com uma prostituta orgulhosa.       

_ Sei que você quis apenas provocar riso com sua observação sem pé nem cabeça – repreendeu-me Derek.

_ Certamente. Não surtiu o efeito desejado. Perdoem-me.

_ Está tudo bem, vamos comer e beber!   

_ Está tudo bem, uma ova! Ele me ofendeu e eu exijo que a polícia seja informada.

_ O quê – indignou-se Derek, o centroavante titular do Osasco Futebol Clube. Talvez tenha razão! Podemos acabar com esta festa!

_ Todos estão aqui por um motivo, não é? Faz parte do jogo - provoquei. Quem perde? Quem ganha? Acho que é melhor descobrir sem a presença de policiais.

_ João está certo, Derek. É melhor nos divertirmos.

_ Isso, aproveitem a festa. Pensem nos motivos bons e alegres.

_ O principal motivo de freqüentar festas de smoking é lucrar no futuro. Gostaria de estar vendo um filmão no cinema - redarguiu Derek, visivelmente irritado.

Olhei com desinteresse o rosto de Eliandra. Era bonito como os rostos que adquirem uma espécie de serenidade artificial. Atraentes, porém, capazes de arruinar pessoas.  Pedi licença e fui ao bar instalado no jardim.    

Há muitos meios de se chegar a um objetivo. Qual seria, porém, o objetivo de quem observa o tempo como a indissolubilidade da existência? Por que pensar sobre o que se parece muito com uma tentativa inútil de dar sentido ao vaguear despropositado de uma observação perene em sua fugacidade? Sentei-me à mesa e olhei a figueira nova cujas folhas quase amarelecidas – já estavam prestes a cair - roçavam o canteiro verdejante no mesmo momento em que impediam os últimos raios de sol de serem apreciados por meus olhos.  

Sinto que não preciso de dinheiro nenhum para alcançar a paz de espírito que tantos crentes almejam. Acostumei-me, no entanto, a pensar automaticamente em gastar nisto ou naquilo. Só por causa disso, sinto-me distante da verdade.

Tenho a sensação de não existir realmente. Sou pior que um andróide. Por que não estou aqui nem ali. Eu inexisto como pessoa. Sou um monte de carne ambulante que discorda da maioria das coisas que faz. Meus objetivos têm sido meras abstrações transformadas em realidade pela indústria do entretenimento.

_ O que está fazendo sozinho aqui, João?

_ Esperando. Esperando que algo aconteça nesta bosta.

_ E o que pode acontecer numa festa em que até os cães são revistados?

_ Tem razão. Já vou circular por aí. Obrigado, Múrcio.

_ Não há de quê, caro amigo!

Engraçado, quando estava ferrado até os dentes, ninguém me chamava de caro amigo. Era sempre um grunhido mal-humorado.

Só à noite me sentirei à vontade. Até lá, resta imaginar a eternidade como um salão de festas cheio de pessoas completamente diferentes de mim.

 

 

 



Escrito por cristiano às 01h25
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Jardim do Éden


O Jardim Nova Itália está cada vez mais lindo. Quando retornei a Limeira, há 17 anos, não imaginava que fosse me adaptar tão bem a um bairro que chegou a passar pelo crivo da estereotipia. O antigo barracão de malha, do qual só restam alguns destroços, havia sido tingido com o sangue de um rapaz assassinado a marretadas no início dos anos 90.

Os rótulos, porém, foram derrubados pela alegria incondicional de uma comunidade irmanada fraternalmente.

Em pouco tempo fiz grandes amigos, virei técnico do time juvenil e aprendi a me espreguiçar na Praça "Valdir Salviatti".

A fala aveludada de seus moradores mais antigos está em consonância com o timbre desafiador dos mais jovens. As vozes se completam como feijão, arroz e o tempero de dona Luzia, mãe de Tales, Moisés, Alexandre, Cristiana (ou Cristina, como nos acostumamos a chamá-la) e Marlene.

Cansei de filar boia na casa de dona Luzia. De churrasco a feijoada. Mas também apreciei com frequência os dotes culinários de Gi, mãe dos camaradas Daniel e Rafael, ambos craques do Esporte Clube Nova Itália desde as divisões de base. Não posso deixar de mencionar ainda o rango de dona Jacira, com Reinaldo no comando da churrasqueira. Nem de elogiar a mãe e as irmãs de Monga Edson e Eduardo Du, que me fizeram delirar com os quitutes de fim de ano.

Além da boa comida, o Nova Itália sempre ofereceu mais encontros do que desencontros. Ambiente propício para uma conversa amena e aperitivos para bebericar ao som de um partido alto ou de melodias tão díspares quando a origem de cada novaitaliano. Eis o verdadeiro caldeirão do qual emana harmonia e diversão.

É verdade que o campo em que o EC Nova Itália mandava seus jogos desapareceu, esmagado pela fúria mercadológica. Mas o time no qual jogaram Jocão, Digão e Gilmar Fedô chegou à maturidade e fez dos outros gramados também o seu território.

Ganhamos, porém, o prédio da Receita Federal. Também a Câmara, o novo campus da Unicamp (o velho também é nosso), academias e punhado de bares bacanas. Há poucos dias, chegou uma choperia. Para completar o roteiro gastronômico e a bebezaina do bairro, há o simpático trailer do Moisés, cujos lanches atraem salivantes admiradores até de outras cidades.

O cotidiano no Nova Itália é sempre vivido com positividade. Não há silêncio absoluto, não há atmosfera de enfado. Nem por isso o velho Cridinho facilita o acesso aos coqueiros de seu quintal. "O domingo tá de sol, o domingo tá bonito, mas não mexe nos meus cocos não". Quem tem juízo não despreza o aviso. Cride costuma punir ladrões de coco verde com canções acompanhadas de uma velha sanfona.

Este é Neto Santana, conhecido como Netão. Netão vive há mais de 40 anos no Nova Itália, é torcedor do Santos, toma uma ração diária de gardenal, gosta de contar histórias, dorme às 19h e acorda às 5h todos os dias, não bebe, mas fuma com certo desespero, acredita que os hebreus estiveram antes na região de Minas Gerais para depois serem escravizados pelo egípcios. Netão adora a Praça "Valdir Salviatti".



Escrito por cristiano às 11h59
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