banzeiro




Escrito por cristiano às 01h09
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Conversa do além

Limão,

Vinicius.

_ O que é que há mais, Cris?

_ Cachaça, mais e mais. E aí, meu velho?

_ Falta o mar.

_ Também acho.

_ Você vai chegar lá.

_ Ao lindo mar de Itapuã.

_ Aos poucos.

_ Não quero ir muito devagar.

 

Minhas lembranças são tesouros.

Meus amigos são tesouros.

Minhas brigas, besouros.

 

_ E as fantasias, corajoso hippie temporão?

_ São tão puras e independentes... E cruéis, talvez.

_ Lembra-se dos primeiros poemas?

_ É claro, quem não se lembra?

 

_ Posso dedicar este samba ao meu amor?

_ Pode, mas não renegues nunca o Plínio Marcos

de suas veias.

 

Minha musa:

não precisa beber esta caipirinha se você não quiser,

eu te amo do jeito que estás;

vejo feliz que seu sorriso faz o mar tempestuoso se acalmar,

vejo o quanto suas faces iluminam o mundo.

Gosto de você assim, sinceramente próxima.

 

_ Às vezes me sinto injusto, sem bem-querença.

_ Ah, mas tudo isso é tão humano...

_ E se humanidade falha?

_ Mas dura tão pouco em quem ama! Basta sua presença.

 

 

 

 



Escrito por cristiano às 00h53
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Lady Everet na choupana de um pusta pobre

Levantaram-se Everet e Pusty depois uma longa noite. Foi o chão frio de cimento que fez o corpo da garota vibrar novamente, em vez da mão úmida de Pusty a tocar seus seios com formidável destreza. Ela olhou surpreendida para baixo e, logo depois, com as mãos cruzadas no peito, como uma indefesa ninfeta, mirou o teto pardacento. O rosto delicado e rosado, então, tornara-se impassível e pálido, como se tivesse alma mercenária. Era o puro sapê do campo, seco e esticado como nas demais moradias daquela cidade estranha, que alterava o humor. Sentiu um calafrio ir do tornozelo ao pescoço e deixou os lábios se amolecerem como dois pedaços de carne batida.

Pusty se espreguiçou sorrindo como um adolescente.

_ Quem diria, hein?

Ela interpretou a pergunta como um desafio. Ou um canto de vitória. Depois de tanto tempo, o rústico misantropo havia conseguido dominá-la. Toda a ternura se fora com o amanhecer. Passara o efeito do álcool e das emulações amorosas. Restara a realidade dura e fria: ela não gostava daquele lugar.

_ Preciso ir pra casa.

_ Por quê? Não há nada lá! Seus pais estão de férias.

_ Preciso checar e-mails, ligar para minhas amigas, ver um pouco de televisão.

_ Não dá pra ficar flanando por algumas horas?

_ Pusty, não somos mais jovens.

O rapaz passou a vista no ambiente. Nada havia de triste ali. Apenas uma imponderável simplicidade. Das panelas de fundo preto ao gato estirado no parapeito da janela.

_ É um saco quando percebemos que nada há de sonho no depois de acordar.

_ Não me venha com suas frases desvinculadas da realidade.

Aos vinte e cinco anos Pusty se sentia velho. Cada vez mais, o amor lhe parece uma aventura regada a álcool e drogas. “Terei que viver chapado para acreditar que amo essa garota?”, perguntou à sombra fugidia da manhã que se desvencilhava do quarto bagunçado.

_ Não estamos num romance de D.H. Lawrence.

_ Isso é uma desculpa imbecil. Devia te despachar somente por ter preguiça de pensar com mais acuidade.

_ Não precisa. Eu vou por quero quero.

_ Dei de bandeja a desculpa da qual você precisava. Mas também posso me sustentar sem precisar descer ao nível das amebas.

_ Você me insulta porque te desafiei. Não faço parte dos seus caprichos.

_ Você precisava de proteção. Depois de um belo orgasmo. Agora que está satisfeita, você volta ao seu conto de fadas burguês ao qual chama de “realidade”.

_ Você é tão limitado quanto eu.

_ Pelo menos não me rendo ao conforto.

_ E o que há de mal nisso?

_ O único e grande mal que há nisso é a cegueira que ele produz. Que vem acompanhada de uma autoconfiança turbinada pelo dinheiro.

_ Não sou pessimista como você.

_ Tá bom, Everet. Se eu a faço se sentir plebéia, é melhor buscar o conforto de seu castelo.  

_ Melhor do que não ter perspectivas.

_ Pode ser. Mas a questão principal não é esta. É saber se teremos peito pra aproveitar alguns dias de calmaria. E também se gostaríamos de viver numa boa, transando com tesão e se alimentando do que existir na penumbra da cozinha.  

_ Podemos viver bem sem precisar assolados pelo fantasma da necessidade.

_ É disso que tem medo? Então é melhor que vá embora, mesmo. Não sou o tipo de homem que paparica mulher. Achei que a sinceridade de um amor fosse suficiente.  

_ Pois bote na cabeça, não é.



Escrito por cristiano às 23h33
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