Lady Everet na choupana de um pusta pobre
Levantaram-se Everet e Pusty depois uma longa noite. Foi o chão frio de cimento que fez o corpo da garota vibrar novamente, em vez da mão úmida de Pusty a tocar seus seios com formidável destreza. Ela olhou surpreendida para baixo e, logo depois, com as mãos cruzadas no peito, como uma indefesa ninfeta, mirou o teto pardacento. O rosto delicado e rosado, então, tornara-se impassível e pálido, como se tivesse alma mercenária. Era o puro sapê do campo, seco e esticado como nas demais moradias daquela cidade estranha, que alterava o humor. Sentiu um calafrio ir do tornozelo ao pescoço e deixou os lábios se amolecerem como dois pedaços de carne batida. Pusty se espreguiçou sorrindo como um adolescente. _ Quem diria, hein? Ela interpretou a pergunta como um desafio. Ou um canto de vitória. Depois de tanto tempo, o rústico misantropo havia conseguido dominá-la. Toda a ternura se fora com o amanhecer. Passara o efeito do álcool e das emulações amorosas. Restara a realidade dura e fria: ela não gostava daquele lugar. _ Preciso ir pra casa. _ Por quê? Não há nada lá! Seus pais estão de férias. _ Preciso checar e-mails, ligar para minhas amigas, ver um pouco de televisão. _ Não dá pra ficar flanando por algumas horas? _ Pusty, não somos mais jovens. O rapaz passou a vista no ambiente. Nada havia de triste ali. Apenas uma imponderável simplicidade. Das panelas de fundo preto ao gato estirado no parapeito da janela. _ É um saco quando percebemos que nada há de sonho no depois de acordar. _ Não me venha com suas frases desvinculadas da realidade. Aos vinte e cinco anos Pusty se sentia velho. Cada vez mais, o amor lhe parece uma aventura regada a álcool e drogas. “Terei que viver chapado para acreditar que amo essa garota?”, perguntou à sombra fugidia da manhã que se desvencilhava do quarto bagunçado. _ Não estamos num romance de D.H. Lawrence. _ Isso é uma desculpa imbecil. Devia te despachar somente por ter preguiça de pensar com mais acuidade. _ Não precisa. Eu vou por quero quero. _ Dei de bandeja a desculpa da qual você precisava. Mas também posso me sustentar sem precisar descer ao nível das amebas. _ Você me insulta porque te desafiei. Não faço parte dos seus caprichos. _ Você precisava de proteção. Depois de um belo orgasmo. Agora que está satisfeita, você volta ao seu conto de fadas burguês ao qual chama de “realidade”. _ Você é tão limitado quanto eu. _ Pelo menos não me rendo ao conforto. _ E o que há de mal nisso? _ O único e grande mal que há nisso é a cegueira que ele produz. Que vem acompanhada de uma autoconfiança turbinada pelo dinheiro. _ Não sou pessimista como você. _ Tá bom, Everet. Se eu a faço se sentir plebéia, é melhor buscar o conforto de seu castelo. _ Melhor do que não ter perspectivas. _ Pode ser. Mas a questão principal não é esta. É saber se teremos peito pra aproveitar alguns dias de calmaria. E também se gostaríamos de viver numa boa, transando com tesão e se alimentando do que existir na penumbra da cozinha. _ Podemos viver bem sem precisar assolados pelo fantasma da necessidade. _ É disso que tem medo? Então é melhor que vá embora, mesmo. Não sou o tipo de homem que paparica mulher. Achei que a sinceridade de um amor fosse suficiente. _ Pois bote na cabeça, não é.
Escrito por cristiano às 23h33
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