Conversas durante o sono
Outro dia fiquei num estado semi-inconsciência. Acordei, mas não estava acordado. Já aconteceu outras vezes, mas vou me fixar neste caso, a princípio. Fui dormir a contragosto na edícula, como de costume. Sinto-me muito sozinho lá, mas não há remédio. Dormir na sala da casa de meus pais incomoda porque minha irmã precisa levantar cedo pra trabalhar e meu ronco não é fácil de suportar. Além disso, ninguém gosta de ouvir devaneios quanto está com sono. Inevitalvemente, teria que encarar as sombras, os ruídos, os calafrios mais uma vez. Duas da madrugada. Reinava o silêncio, que só não era absoluto porque um ou outro rangido cortava o vazio. Noite sem lua, sem estrelas. O vento era só um acessório macabro. Deixei a porta aberta com receio de ter um pesadelo e grunhir sofregamente. Isso ocorre com certa frequência. Minha esperança é sempre que alguém ouça e venha me despertar. Ou venha me fazer companhia. Mas isso nunca acontece. Durmo, passo mal e acabo tendo que me levantar e circular com o cuidado de não acordar ninguém. Pois bem. Cansado e com vontade de dormir, tomei dois dorflex e comecei a ler um gibi. Tinha esperança de que as imagens divertidas voltassem a povoar minha mente. É claro que isso não aconteceu. Caí num sono pesado, angustiante. Não queria dormir ainda, mas a força do remédio e o cansaço me dominaram. Quando acordei, ou melhor, quando abri os olhos parcialmente, sonolento, amolecido, enfraquecido, vi uma figura que se misturava com a sombra de alguns aparelhos eletrônicos. Estava bem na minha frente, parada e, pode-se dizer, calma. Não tive escolha a não ser fazer contato. _ Por que você está aqui? Nada. Nenhuma resposta. Insisti, procurando ser amável: _ Podemos conversar? Também não me sinto bem. Vejo, vagamente, a figura se mexer, como se preparasse uma frase. Não transmitia nada terrificante ou coisa do gênero. Parecia uma criança. _ Eu gosto de estar aqui – disse. Ou era mais ou menos isso. _ Por quê? _ Não sei. Ainda não sei. _ Como é seu nome? Pra falar a verdade, me lembro de pouca coisa. Mas algumas perguntas foram feitas e respondidas. Houve uma conversa, uma espécie de sintonia, por alguns segundos. Ou teriam sido minutos? Em determinado momento, porém, eu fiquei muito inseguro. Fiquei com medo. O sono aumentava e era difícil raciocinar. _ O que Jesus Cristo diz de você estar aqui? A figura me pareceu constrangida. Não é que não tenha gostado da pergunta, mas dava a impressão que estava ali sem permissão. _ Não falemos nisso agora – recriminou-me. Eu insisti. _ Você sabe quem é Jesus? E, calmamente, pareceu querer mostrar seu rosto. Tive a certeza, então, de que estava de partida. O sono me abateu violentamente, as imagens se misturaram e eu despertei. Só havia o aparelho de som e as caixas na minha frente. Quando eu morava em outra casa, episódio semelhante se passou. Também conversei longamente com uma criança. Não sei se era sonho ou realidade. Ou supra-realidade. O falto que ela até me falou seu nome. Era Ana. Naquele dia, depois da conversa, dormi tranqüilo. Para chegar a entabular o diálogo com Ana, porém, fiquei totalmente relaxado. Quando percebi que algo estava no quarto, algo semelhante a uma luzinha, longínqua, eu pensei comigo: _ Estou aqui pro que der e vier. Que seja feita a vontade da eternidade. E abri meu coração. Foi uma das melhores conversas que já tive. E, no entanto, não sinto vontade de voltar a tê-la.
Escrito por cristiano às 01h29
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