banzeiro


Homenagem ao UB40

_ Vai um copo de guaraná aí, moleque?

_ Valeu, hein, tio?

 

Portas abertas no bar.

Paraísos artificiais para domar a realidade.

Dooo

mingooo

cedo.

 

Uma pinga,

pão com mortadela

e café quente.

 

Toca para Ribeirão Preto.

Música, vinho e grito

de guerra ecoam no busão.

 

Vencemos o jogo.

Vencemos mais um dia.

Não me recordo do placar.

Mas em tudo há uma lição.

Mesmo na cerveja mergulhada no barril.

Mesmo no churrasco.

Mesmo no jato de água pra despertar.

 

_ Valeu, hein, tio!

 

Observo, maravilhado,

árvores de verdes transcendentes que cerram o azul do céu.

Azul quase ofuscante.

Muito estranho.

Concreto sob os pés

e azul infinito sobre a cabeça.

 

Quantas vezes você já esteve aqui?

Já reparou neste gramado?

E nas folhas secas?

 

O cachorro espera o osso ou a carne cair.

A criança pede com os olhos.

 

Quer comer, moleque?

_ Valeu, hein, tio!

 

Canarinho olha para o espaço.

Canarinho, um amigo,

viria a ter um derrame meses depois.

O moleque nunca mais vi.

 

Canarinho já fala e trabalha.

Carrega entulho,

limpa terreno

e ganha o suficiente pra comprar uma marmita.

E talvez, talvez, talvez, caro amigo,

um guaraná.

 

_ Quer um guaraná, moleque?

_ Valeu, hein, tio!



Escrito por cristiano às 02h32
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Conversas durante o sono

Outro dia fiquei num estado semi-inconsciência. Acordei, mas não estava acordado. Já aconteceu outras vezes, mas vou me fixar neste caso, a princípio.

Fui dormir a contragosto na edícula, como de costume. Sinto-me muito sozinho lá, mas não há remédio. Dormir na sala da casa de meus pais incomoda porque minha irmã precisa levantar cedo pra trabalhar e meu ronco não é fácil de suportar. Além disso, ninguém gosta de ouvir devaneios quanto está com sono. Inevitalvemente, teria que encarar as sombras, os ruídos, os calafrios mais uma vez.   

Duas da madrugada. Reinava o silêncio, que só não era absoluto porque um ou outro rangido cortava o vazio. Noite sem lua, sem estrelas. O vento era só um acessório macabro. Deixei a porta aberta com receio de ter um pesadelo e grunhir sofregamente. Isso ocorre com certa frequência. Minha esperança é sempre que alguém ouça e venha me despertar. Ou venha me fazer companhia. Mas isso nunca acontece. Durmo, passo mal e acabo tendo que me levantar e circular com o cuidado de não acordar ninguém.

Pois bem. Cansado e com vontade de dormir, tomei dois dorflex e comecei a ler um gibi. Tinha esperança de que as imagens divertidas voltassem a povoar minha mente. É claro que isso não aconteceu.

Caí num sono pesado, angustiante. Não queria dormir ainda, mas a força do remédio e o cansaço me dominaram. Quando acordei, ou melhor, quando abri os olhos parcialmente, sonolento, amolecido, enfraquecido, vi uma figura que se misturava com a sombra de alguns aparelhos eletrônicos. Estava bem na minha frente, parada e, pode-se dizer, calma.

Não tive escolha a não ser fazer contato.

_ Por que você está aqui?

Nada. Nenhuma resposta. Insisti, procurando ser amável:

_ Podemos conversar? Também não me sinto bem.

Vejo, vagamente, a figura se mexer, como se preparasse uma frase. Não transmitia nada terrificante ou coisa do gênero. Parecia uma criança.

_ Eu gosto de estar aqui – disse. Ou era mais ou menos isso.

_ Por quê?

_ Não sei. Ainda não sei.

_ Como é seu nome?

Pra falar a verdade, me lembro de pouca coisa. Mas algumas perguntas foram feitas e respondidas. Houve uma conversa, uma espécie de sintonia, por alguns segundos. Ou teriam sido minutos?

Em determinado momento, porém, eu fiquei muito inseguro. Fiquei com medo. O sono aumentava e era difícil raciocinar.

_ O que Jesus Cristo diz de você estar aqui?

A figura me pareceu constrangida. Não é que não tenha gostado da pergunta, mas dava a impressão que estava ali sem permissão.

_ Não falemos nisso agora – recriminou-me.

Eu insisti.

_ Você sabe quem é Jesus?

E, calmamente, pareceu querer mostrar seu rosto. Tive a certeza, então, de que estava de partida.

O sono me abateu violentamente, as imagens se misturaram e eu despertei. Só havia o aparelho de som e as caixas na minha frente. 

Quando eu morava em outra casa, episódio semelhante se passou. Também conversei longamente com uma criança. Não sei se era sonho ou realidade. Ou supra-realidade. O falto que ela até me falou seu nome. Era Ana. Naquele dia, depois da conversa, dormi tranqüilo.

Para chegar a entabular o diálogo com Ana, porém, fiquei totalmente relaxado. Quando percebi que algo estava no quarto, algo semelhante a uma luzinha, longínqua, eu pensei comigo:

_ Estou aqui pro que der e vier. Que seja feita a vontade da eternidade. E abri meu coração.

Foi uma das melhores conversas que já tive. E, no entanto, não sinto vontade de voltar a tê-la.

 

 

 



Escrito por cristiano às 01h29
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A minha área me espera

Direto das ruas de terra de Barra do Turvo para o chão de terra batida da casa de Cullinha.

_ Aí, mano, vou lhe apresentar um som louco.

A velha sonata começa a tocar Fim de Semana no Parque.

_ Quem são esses caras?

_ Estes são os Racionais MC’s, grupo de rap que cresce a cada dia. Tenho uma fita com várias músicas dos caras. Toma aí, leva pra ouvir na sua casa.

Passamos pelo galinheiro improvisado no quintal, cumprimentei os irmãozinhos do Culla, naquela época pequenininhos, mas já fanáticos por futebol. Oziel, santista. Ozimar, corintiano. Depois se tornaram bons jogadores de futebol. Do Nova Itália para o União Barbarense, Guarani e outras paragens.

_ Vamos bater um melão? Tá quase na hora da rapaziada se reunir – convocou Cullinha.

_ Demorou.

Sol de dezembro, campo verdíssimo, a galera chegando. Começa a escolha dos jogadores.

_ Payacan, Curruíra, Lico, Moisés, Beidi, Gilmar, Digão, Jocão, Luizinho, aqui. O capitão João Preto chamava seus atletas.

_ Daniel, Rafael, Monga, Du, Beba, Lemão, Bode Zé, Gordo, Maurinho e Pino vêm comigo. Careca, o Ednaldo, organizava seu time. O barriga verde fica com vocês.

_ Barriga verde joga com a gente, então.

Não tinha tempo ruim com João Preto.

Jogávamos golzinho na lateral do gramado. Do lado, o campo de malha detonado abrigava um barzinho fuleiro e várias mesas de bilhar.

_ Esse cara é muito ruim. Dá pra ver só pela falta de estilo. Parece uma lombriga doente! – era o Beba corneteiro. E joga de óculos ainda! Ai, minha santa mãe!

Começa o jogo. Beba perde um gol feito logo de cara. Nova saída. João Preto toca da linha de fundo para Paulinho Paycan. Ele passa com açúcar e afeto pra mim. Encaçapo na moral.

Zuação total pra cima do Beba.

Era meu batizado no Nova Itália.

 



Escrito por cristiano às 13h42
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Escrito por cristiano às 13h03
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Escrito por cristiano às 13h02
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Escrito por cristiano às 13h01
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O suor vem pela manhã

Carrego um lenço no bolso e três na maleta. Enxuguei a testa com um deles. Bebo uma jarra de suco que não engorda. Acendo um cigarro. Todas as noites acordo num sobressalto com a sensação de que há alguém na penumbra querendo me estrangular. Ouço num eco ao longe a música de um disco riscado. “A madrugada fria só me traz melancolia”, ressoa a recordação. Eu me lembro vagamente desse tempo de apreciação de velhas canções.

Ninguém tem culpa de nada.

O silêncio é devastador. Todos dormem. Gostaria de ouvir o ronco de alguém. Talvez um tossido. Não há sequer cães latindo. Os periquitos estão debaixo do pano. As estrelas estão escondidas. Todos estão distantes.   

Quando eu tinha ânimo imaginoso, saía madrugada afora para conversar e beber cerveja com pessoas estranhas. Depois fiquei fraco e medroso. O máximo que faço neste dia de tremores é beber água gelada numa garrafa de vidro enquanto observo figuras, livros, objetos.

Não tenho mais vontade de ver fotografias antigas. Nem sinto saudade do que já me emocionou. Agora, só resta o vácuo.

Deixei o saco que tinha um pão em cima da estante. Preciso jogá-lo fora ou, ao menos, tirar de minha vista. Vazio e amassado, parece-me tremendamente antiestético. Até o conteúdo do lixo me é mais agradável que uma sacolinha de plástico que tinha pães franceses amarfanhados dentro.

Todas as noites, recordo-me dos mortos. Gostaria de ter uma garrafa de uísque por perto. Bom, pelo menos tenho água gelada.  

Minhas canelas estão inchadas. Há manchas roxas nos tornozelos. Os joelhos doem. Sinto que estou ficando cada vez mais encurvado. Logo me chamarão de corcunda de Notredame. Ou de sujeitinho precocemente gagá. Ouço caminhões passando nas proximidades. Desisto da tentativa de me fazer rir.

Há resquícios de moralismos mal resolvidos em cada canto. E sentimentos mórbidos de culpa. Tenho remorsos de estar vivo.

Nem no sonho mais sem nexo o cigarro dava pinta de que seria meu companheiro mais próximo quando o vento da madrugada viesse acariciar meus pés após passarem canhestramente pelas frestas empoeiradas das janelas e das portas.

Assisto a mais um filme, leio mais um gibi do Tex, inicio mais um livro. Agora, sinto que conseguirei terminá-lo. Impossível não dar cabo de “Insônia” nestes momentos de arroubo pseudometafísico. O verdadeiro alvo, porém, são os contos de Poe. Mas só os abraçarei na hora em que tudo estiver mais calmo.

Penso nos amigos, nos parentes, em mim. Observo os lenços que retirei do bolso e da bolsa. Estão tão inertes quanto as bitucas de Hollywood . Não há nenhum fantasma mexendo nas cortinas nem abrindo a porta do quarto. Ninguém está aqui. Ninguém está sabotando meu sono, a não ser eu mesmo.

Todas as coisas estão nos seus devidos lugares. Os lenços não estão usados. Estão praticamente limpos. Só usei um deles para enxugar a testa. Mas isso foi durante o dia. A madrugada é fria.



Escrito por cristiano às 03h06
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