Reflexão da madrugada
Bebamos ao desencontro misterioso, porém unificador. Percebo que atingi um nível de equilíbrio muito bom. Não mais me destroço em laconismos etílicos na solidão da madrugada. Isto é o que classifico de serenidade ocidental. Um dos passos que já previ para o enigmático ocaso da carne e a necessária ascensão do espírito. “Sou mais que santo pois não sou ordenança de nenhum deus”. (João Gilberto Noll – A Fúria do Corpo) Vejo meu deus esmigalhado. “A alma emigra do corpo (nos sonhos)”. (Ernesto Sábato – Meus fantasmas) Ler só serve para aliviar a incompletude. Admiro as mulheres fortes. Elas são completas, mas se compartimentalizam para preservar os sonhos pueris dos homens. “Sê sábia, minha Dor, e mantém-se quieta!” (As Flores do Mal – Charles Baudelaire) A temperança me enerva, mas só pode fazer com que meus sonhos não sejam dizimados pela amargura. “Foi um grande alívio o fato de não ter havido explosões, reproches: somente um silêncio polido de quem finge ignorar...” (Contraponto – Aldous Huxley) Lembro-me de recitar trecho de Provérbios muitas vezes na igreja. “A resposta branda desvia o furor, mas a dura suscita a ira”, pelo que me vem agora, à cabeça. Adulto, fiz tudo ao contrário. E, confesso, me dei mal. Eu confio em mim para algumas coisas. Sabia que tinha anotado algo importante de Balzac. Leia: “...o tempo é o mais precioso capital das pessoas que só têm a inteligência por fortuna”. (As ilusões perdidas). Se me acho inteligente? Claro! Se não do que adiantaria perder-me em devaneios? Penas que eu não seja transparente. Pudera! Tenho recebido uns tapas.
Escrito por cristiano às 02h07
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