Devaneios de um sábado algo sartriano
Tecnicamente, não me lembro mais das nomenclaturas melódicas, por assim dizer. Mas gostei desde o início de Chopin. Por que motivo digo isso? Para louvar, ainda que sem efeito, a obra. No começo, era muito Beethoven. Depois Mozart. E os hinos sacros. Mas aprendi a ter preferências. Principalmente depois da leitura de Jean-Christhophe. Michael Jackson veio após eu aprender os primeiros passos do break, lá pelos idos de 1983. Foi importante porque me apresentou a diversão em meio à disciplina religiosa. A música clássica, porém, me remete às catacumbas do espírito. É onde me dou melhor. Houve um tempo em que ouvi muito Bach em conluio com a literatura de Sartre. Um estrago. Um tão-só no mundo. Graças a isso, sei do que sou feito. Só o fracasso me constrói. Ah, como era bom não ter dinheiro nem vícios fomentados pela necessidade de fazer parte de alguma coisa! Sobre Sartre, conversei muito com um bom amigo, o André Montanhér. A Náusea também lhe deixou algumas impressões profundas sobre vida e sociedade. Sobre as outras obras de Sartre, não me recordo muito bem das análises feitas com alguma ruminância nas mesas de bares. A inquietação, porém, sempre esteve presente. Na última conversa que tivemos, André me falou sobre Lênin, rapidamente. No momento, não me sinto inclinado a destrinçar este símbolo da revolução antiburocrática. Deu-se, após sua morte, o rompimento da reflexão profundamente marxista e a instalação da tecnocracia que prevaleceu nos espaços mujiques com muito sangue, para desespero dos verdadeiros revolucionários. Que o diga Trotsky. Sartre chegou a abordar algumas nuances do desgaste pós-guerra, num mundo político ainda impregnado pela fantasia stalinista, mas muito mais do que pontualidade filosófica, ele deixou fluir a subjetividade como estímulo da ação. Transcendência para nós, pobres mortais, beberem com avidez. Hoje, andam execrando-o. Não sei direito. Tenho perdido tempo lendo jornais. Ainda pretendo ler com dedicação O ser e o nada, comprado a duras penas. Por ora, sondemos outras pradarias. Optei pelo caminho de me integrar ao grosso da massa e me dei mal. Não porque fosse pérola, mas justamente porque me falta algo que não consigo identificar. Ou seja, a incompletude – talvez fantasiosa - me alijou da serenidade do pragmatismo, tão necessário para a alegria de compartilhar bens simbólicos da produção cultural. Ou pretensamente cultural. Pena que eu não tenha dinheiro para uma vagabundice produtiva ou estofo para interpretar com propriedade as obras que me tornam mais reflexivo. Resta a intuição. Isso, ninguém me tira. Mas, reconheço, é pouco. Assim, duramente, afigura-se a consciência de classe. Poderia ter continuado a estudar violino? Logicamente. Há contigências, porém. Quem pode relativizar a cotidianidade tão sumariamente que torne a culpa um estímulo poderosíssimo capaz de suplantar as limitações? Deixemos as raízes do conflito para um dia ensolarado por Freud e Reich. Hoje, sou uma criança dominada pelos fantasmas religiosos e econômicos. Sou muito mais objeto de estudo de Jung. Não me sinto plenamente amadurecido. Não entendo muito bem o que querem dizer as pessoas que têm um ritmo mais racional dos desenlaces da vida. Olho um copo com resto de cerveja e devaneio. Penso em ter fé e ser bom, mas já não creio firmemente em humanidade.
Escrito por cristiano às 17h08
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