Brigas envelhecem
Confirmou-se o que era apenas percepção. Depois de tanto tempo, quase todo perdido. “E a essa hora estou idiota demais pra conferir minha carteira, não sobrou um centavo (Tristessa, Jack Kerouac)". Mas não restou só a carteira vazia. Restaram hematomas. E a solidão. Estou lavando o copo na pia do banheiro. Água e vinho parecem sangue. De certa forma sangro. Tenho certeza de que nunca fui de briga. Não porque fosse fraco. Mas trocar pancadas sempre me foi muito desgastante, muito tedioso. Eu apanhava e achava tudo um saco. Não por autopiedade ou medo. Mas porque dava um trabalho danado se recuperar, juntar-se, superar todos os complexos depois da surra. Não culpo ninguém, não tenho saco pra isso. Mas parece uma maldição. A primeira surra da qual me lembro claramente foi aos seis anos. Meu pai me disse, após um discussão qualquer: _ Tira essas mãos da cintura, mulherzinha! Eu tinha mania de ficar bravo e colocar as mãos na cintura, igual minha mãe. Depois que tomei um pau disciplinador, parei com essa prática meio gay. Vez ou outra ainda ouço alguém dizendo dentro de casa que a falta de mulher (namorada fixa) evidencia minha condição de boiola. Não dou mais risada disso. Lamento que seja tudo tão raso. Melhor seria dizer que só transo quando pago. Ou seja, sou um fracasso como conquistador. Mas é mais fácil relativizar. Dessa briga corro rápido. Deixem-me em paz, grito em silêncio. Seria mais macho se fosse realmente gay nesta família cristã-fascista. Mas sou apenas um rapaz comum, tímido e covarde. Constato que só me restam as personagens estilo Marisa Tomei em “O Lutador”. Se não fosse por algums conselhos das mulheres do submundo, eu seria um romântico inveterado. Aí perderia a briga para a realidade. Tão novo, tão fudido. Reclamo de barriga cheia. Tenho, pelo menos, dinheiro para gastar com livros, minha motocicleta detonada, bebidas. Nada de status. Um marginal sem glamour. Misantropo forçado. Mas tive meus amores verdadeiros. Poucos, sim. Mas relevantes lembranças. Quando entorpecido pela cachaça, voam sobre minha cabeça como anjos pacificadores. Ainda me resta essa paz da semifantasia. Depois da última surra me lembrei que nunca fugi de porrada. Me senti orgulhoso. Mas veio também a consciência. Falta de assimilação. De racionalidade. Se eu tivesse aprendido a ter jogo de cintura seria bem melhor. Só agora aprendi a gostar das boas coisas da burguesia. Mas aos 34 anos, como construir riqueza? Com tantos vícios? Espero, ao menos, viver o bastante para aprender a tocar guitarra. Bela ambição, hein? Bela ambição. Onde dormi, onde comi e bebi não importa. Ninguém se importa. O importante é que hoje estou dormindo em uma cama com colchão. Nunca mais quero acordar no chão frio de cimento com um bando de desconhecidos chapados e egoístas. Depois cortar quilômetros tropeçando até chegar em casa. Péssimo. Sujo, fedendo, cabelo ensebado, respirando com dificuldade, cheio de angústia e remorso. Cansei de apanhar. A primeira surra que tomei foi aos seis anos. Disciplina. Passei a bater continência para a Polícia Militar. Meu pai achava que era o começo do respeito essencial pelas autoridades. Patético. Depois aprendi a brigar na escola. Muitos paus. Nunca freqüentei academia. Meu pai me ensinava em casa. Guarda fechada, raiva racionalizada, pontos fracos do adversário. Aprendi a ser cruel. A molecada na rua contribuiu pra cacete. Por isso entendi plenamente quando os marginais que me assaltaram chutaram minha cabeça. Eu teria feito o mesmo. É uma questão de vingança. Mas não sou assim. Não gosto de brigar. Me sinto mal, vomito, choro. Agredir alguém me fez menor. Constantemente, porém, sou desafiado. Já troquei muito soco com muito canalha sem pensar em consequências. Olho roxo, nariz quebrado, joelho ralado, braços marcados. Comprei muita briga. Em clube, na rua, na escola. Defendia meus amigos. _ O Da Lua é ponta firme! Eu partia pra cima. Autodestrutivo, intuitivo, desafiador. Queria descobrir no que sujeito mais forte poderia me superar. Um eterno teste macabro. Os anos passaram. Gosto de resistir à vontade de dar porrada. Quando me domino, me sinto mais humano. Me liberto. Quiseram me ensinar a ser selvagem, mas insisto na civilidade. Eu venci. Eu não sinto ódio.
Escrito por cristiano às 18h02
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