Uma canção para Hannah
O velho Jaguar percorre as ruas desertas do centro encardido. Passa serpenteando lentamente por placas de publicidade e pinturas comerciais. Hannah manobra o volante com a mão direita e segura uma latinha de Skol com a esquerda. Vai deslizando pernosticamente no asfalto mole a 40 Km/h. Tem os olhos semicerrados e os cabelos louros colados à testa. O rádio toca um velho rock, o rádio também velho. Talvez seja folk a música que ela ouve com uma espécie de pseudonostalgia. Possivelmente lembranças de um passado milenar.
Nada aqui, nada ali.
Um homem de cabeça prateada e barriga bastante saliente caminha ajeitando os óculos escuros na calçada que o convida a tropeçar. Encara Hannah por um segundo depois foge lépido como um coelho assustado.
Deus está roncando.
O diabo saiu para comprar cigarros.
Hannah atira a lata vazia. O meio-fio parece o limite de uma vida.
O sol não diz nada nem as árvores.
O Jaguar roda comprimindo pedriscos que escapam da pressão da borracha quando os pneus mudam de direção. O dia está embaçado, o vapor que sobe do asfalto imprime garatujas no rosto macilento do ar.
Hannah pára pra comprar cerveja num bar. Dois sujeitos numa mesa a medem dos pés à cabeça. Um franze a sobrancelha e faz qualquer comentário com o companheiro de copo. O tênis de Hannah silva no soalho do boteco. Ela coloca o dinheiro amassado sobre o balcão e vira as costas para o sorriso irônico do balconista. Enxuga a mão na camisa branca e está abrindo a porta do carro quando ouve um assobio.
_ Ô moça! Não quer conversar um pouco com a gente? Ninguém tem nada pra fazer mesmo...
É um dos caras sentados à mesa de plástico amarelo.
_ Não, obrigado - diz secamente.
Hannah entra no Jaguar e vai embora. Não sabe para onde.
Escrito por cristiano às 14h31
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