Cientistas brilhantes trabalharam para o nazismo na 2ª Guerra Mundial. Padres condenaram seres humanos a morrer queimados. Artistas talentosos ajudaram a promover o fascismo. Vários intelectuais brasileiros defenderam a ditadura militar. Pastores se enriqueceram às custas de fiéis. Acadêmicos franceses fizeram campanha a favor da xenofobia. O que todos eles tem em comum? O moralismo.
As pessoas que chegam ao limite de sacrificar a liberdade de outras para defender um código de conduta acreditam no mito da superioridade. Crêem estar a serviço de um bem supremo ou fazer parte de uma engenhosa casta de superdotados que precisa ser defendida de bárbaros - ou, no caso, de todos aqueles que são diferentes.
Por diferença se entenda tudo aquilo que quebra padrões, viceja autenticidade e estimula o raciocínio e o prazer. De origem a estilo de vida.
Os arautos do dogma costumam ser intransigentes. E precisam viver num estado de vigília que assegura o controle dos instintos. O efeito profilático que a disciplina tem em suas vidas estimula a hipocrisia. Sem a organização quase patológica que lhes permite seguir um paradigma das relações sociais e afetivas, não seriam mais que animais adestrados que perderam o domador.
Os pseudointelectuais são mais propensos a se tornarem dogmáticos. De juízes a presidentes de conglomerados. Eles costumam odiar quem escancara o desregramento. Por trás de tanto ódio, porém, está o sentimento de culpa.
Embriagados com a sensação de defender a verdade absoluta e de ser admirados, os dogmáticos são incapazes de elaborar conceitos a partir da própria experiência ou de compreender ideias que vão de encontro às suas crenças. Por isso, costumam se abrigar sob a égide do status. Mais do que qualquer um, os amantes da padronização apreciam uma elevada posição social e poder de consumir.
Como profetizou Pier Paolo Pasolini, o consumo desenfreado seria legitimado justamente por pessoas de fé e instrumentos sagrados - como magistrados e a bíblia.
Sem o manual de conduta - seja o alcorão ou a doutrina nazista - os adeptos do moralismo deixam de recitar as palavras que lhes servem de esteio espiritual para cair em desespero. É desta incapacidade de convivência com o diferente que surge a beligerância.
Não é nem o caso de tolerância, porque tolerar alguém é supor que se está acima deste alguém. O caso é de aceitação total e irrestrita. Situação que seria colocada em prática, provavelmente, somente por meio de reflexão e terapia psicossomática. Reflexão e terapia podem ajudar a romper barreiras psicológicas, couraças emocionais. Particularmente, neste campo gosto muito das teorias do psicanalista Wilhelm Reich.
A moralidade burguesa substituiu os dogmas violentos de governos despóticos pela sutileza do fascismo consumista. Este código de conduta, sendo alimentado pelo vazio existencial, pelo niilismo pós-moderno (maniqueísta, covarde e conservador) e pela falta de bandeiras (culpa da inconsistência ideológica desta época) arregimenta multidões que estão desejosas de partilhar do suposto poder que os novos fascistas (as grandes corporações) têm de ditar comportamentos.
Há milhares de anos o espírito humano vem sendo preparado para receber conhecimento e devolvê-lo ao mundo como energia transformadora.
Precisamos evoluir para garantir a sobrevivência da espécie.
Evoluir, porém, não significa construir um amontoado de caixas de concreto e cimento armado. Tampouco significa colecionar títulos, honrarias ou quaisquer coisas do gênero. Isto é apenas um fenômeno social denominado como status.
O status varia suas regras de sociedade para sociedade. A evolução não está ligada a processos de valoração do comportamento humano. Porque atribuir ideais padronizadores ao modus vivendi implica estagnação, ainda que a aparência seja de progresso social.
Assim como há fantasias sobre nossa origem, também há fantasias sobre nossa vida em sociedade. Algumas delas estão ligadas a poder e dinheiro. As diferenças, neste caso, são execráveis. O que o capitalista quer é legitimar seu caráter messiânico por meio de um simulacro de liberdade de escolha.
Mas são justamente as diferenças que nos fazem ricos e nos aproximam. Há questões de foro íntimo e temperamento que nos induzem a tomar decisões muito particulares. Nisto reside a independência e criatividade humanas. E desse modo trocamos experiências.
O conhecimento só será uma fonte de energia transformadora quando deixar de ser privilégio de alguns.
Por outro lado, a natureza age de modo misterioso. Ter conhecimento não significa dominar determinadas técnicas ou regras. Vai além disso. Porque conhecer implica compreender. E compreender carrega no seu cabedal de sinônimos uma forte carga sensorial.
Ou seja, conhecimento também está ligado a sensações, vivências. Estes são elementos comuns a todos os seres humanos. É como se fôssemos todos deuses muito poderosos dotados de uma essência telúrica que existe, mas se distanciou de nós porque, num dado momento de nossa existência, demos prioridade ao ego.
Devemos compreender, sentir e evoluir pela beleza de se estar vivo. Nunca para termos a ilusão de que somos especiais. Somos deuses porque somos constituídos de elementos sensoriais, psíquicos e bioquímicos capazes de mudar estruturas mentais e sociopolíticas.O planeta Terra, porém, sobreviveria muito bem sem nossa presença. O que nos valoriza é justamente a humildade de aceitar nossa condição ínfima diante da natureza e nossa grandiosidade diante de nosso poder transformador. Ver-se como um agente da verdade e da harmonia só pode trazer prazer.
Somos, neste sentido, poderosos para fazer o bem. Mas como ainda estamos engatinhando na descoberta e valorização de ações que nos fazem realmente humanos, somos presas fácil de nossas ambições mais irracionais.
É na falta de esforço para nos mantermos fiéis às raízes mais profundas do respeito pelo homem que está a perturbação do instinto. A solução, porém, não está nos dogmas religiosos nem no acúmulo de capital. O Estado também nunca dominará a natureza humana pela força. A propaganda tem sido elemento mais eficaz para alienar e impedir viradas de mesa. O correto seria o Estado se esforçar para estimular comunidades capazes de se autogerir sem hierarquias ou leis.
O mundo, todavia, gira com a mestria de um artista.
Todos os líderes místicos se completam porque ninguém está acima das leis da natureza. O resto é lenda. Se pudermos digerir com parcimônia algo do que foi dito por Jesus Cristo e Buda, por exemplo, perceberemos que seus discursos se baseiam na convivência pacífica.
Nada de extraordinário se não fosse tão óbvio. Assim como outros gurus, estes dois entes oferecem a paz. A diferença básica está no fato de que Jesus dá brecha para um processo beligerante se intensificar mais com o advento do Islamismo. Buda, por não ter Pai no céu, permaneceu mais pé no chão. Pra ele, a questão não é oferecer a outra face quando se apanha. É evitar chegar ao ponto em que se corre o risco de apanhar ou bater. Não se trata de omissão ou covardia. Trata-se de criar espaço para a contemplação e a harmonia. Se você deixa de perceber o que está ao seu redor, tem muito mais possibilidades de tomar um tapa na cara e de devolvê-lo. São observações com um certo viés psicológico, mas cuja essência religiosa é limitadora. Em qualquer livro sagrado há alguém que defende outrem. Mas a realidade ensina que não bem assim que acontece nas relações humanas.
Podemos, entretanto, ampliar nossos horizontes aprendendo com filósofos acadêmicos e de botequim. Porque todos estão interligados, todos se completam. E se alguém acredita que é especial porque sabe mais do outro, engana-se e deixa de compreender certas contingências da cotidianidade muito importantes para o resgate de nossa força telúrica.
Somos todos complementos uns dos outros, como seres humanos, vegetais e minerais. E só desse modo temos importância e capacidade de evoluir.
É por isso que todo elemento que faz parte das relações homem/natureza contém um universo de possibilidades dentro dele e está acima de qualquer juízo de valor. O que traz harmonia para o caos é justamente a capacidade que temos de nos compreender uns aos outros.
O ponto de equilíbrio está na compreensão que a humanidade tem de seu poder transformador.
É nesse ponto que as neuroses desaparecem e surge a vontade. A vontade de potência. Então não precisamos mais de mitos ou deuses, mas da unidade.
A unidade não permite que o ego se torne senhor de nossas ações, mas o extingue, obrigando-nos a beber um néctar que recusávamos porque estávamos idolatrando nossas falhas. Éramos crianças concentradas em um brinquedo ou em não deixar ninguém brincar com nossos bonecos.
Deixamos de ser individualistas para nos tornarmos indivíduos. O processo de individuação liberta o espírito do famigerado livre-arbítrio.
O desejo puro que sai da fumaça depois que o ego é reduzido a cinzas é um sinal de resistência.
Porque analogias com fumaça e fogo são tão precisas e, ao mesmo tempo, tão simbólicas? Esta subjetividade é necessária porque, apesar de estarmos no caminho para superar mitos, não os desprezamos. Sabemos que fazem parte de nossa história. Desde a sarça ardente com quem o hebreu Moisés conversou até o payote que transformou o xamã Huichol em águia, temos guardado em nosso DNA inúmeras sensações e memórias que extrapolam as fronteiras da espiritualidade como a conhecemos. As formas de conexão com o desconhecido ou com nós mesmos estão fundamentadas em possibilidades. Não há nada pronto e acabado em se tratando de gênero humano. Este
grande mistério que nos faz crentes na tradição e no progresso é o amálgama que sintetiza o cosmos dentro de nosso espírito. No cerne desta estrutura miraculosa – e molecular - está a principal ferramenta da evolução: o amor.
Gordon Matthew Sumner nasceu em 2/10/51, na Inglaterra. O nome Sting (picada) foi um apelido dado por um colega quando ele usava uma roupa listrada preta e amarela, lembrando uma abelha. Foi professor e pedreiro antes de formar o The Police, que se aproximou do punk no single de estreia "Fall Out" (1977). Logo iniciaria uma trajetória de sucesso com "Roxanne" e "So Lonely" (1978). Em carreira solo, assumiria influência do jazz e da world music. Em 1986, fez campanha por direitos humanos e aderiu também à causa ambiental. Na passagem brasileira da turnê "Human Rights Now", conheceu o cacique Raoni, que em 1989 o acompanharia à Europa para pedir recursos para a demarcação de terras indígenas da Amazônia.
Muito legal a entrevista concedida por ele ao roqueiro Lobão, publicada hoje no Mais! da Folha de S. Paulo.
Bom, pra quem gosta de layout, se é assim que se fala, parabéns a qualquer um, seja lá quem for.
O problema é que atualizo meus blogs quando me dá na telha. Principalemnte este Banzeiro, cujo único compromisso é anarquizar.
E sempre foi assim, por uma questão de princípios e até de coerência - o Cristiano Kock Vitta é desse jeito, é um canalha espiritual deste sistema podre.
Eu não preciso me submeter a nenhum padrão estético, empresarial ou econômico porque muito antes de ser blogueiro sou um ser humano pensador e já escrevia bastante sem precisar de blog, site, o diabo. Basta um papel e uma caneta e me dou por satisfeito.
Mas o Banzeiro me dá prazer porque me ajuda num desnudamento muito necessário para minhas pretensões literárias. Embora seja tachado de pretensioso, inútil (graças a Satã), imoral, babaca, inconveniente, deselegante, arrogante e dezenas de outros adjetivos depreciativos, o Banzeiro conserva sua autonomia intelectual - mesmo que seja à custa de muita angústia e autodestruição.
Aqui você só verá experimentações, devaneios, desabafos, críticas e análises relacionadas à literatura e ao campo das artes, seja lá o que isso for.
Neste blog não há concessões para a indústria do entretenimento nem para a moral burguesa.
O Banzeiro é a favor do sexo grupal, do amor libertário, da convivência sem contrato, do comunismo, da legalização da maconha, do ateísmo, da liberdade de expressão, da extinção da propriedade privada, da umbanda, da literatura, das diferenças, da derrubada das hierarquias, da substituição do papel-moeda por um mecanismo de valorização das relações pessoais, da verdade total e irrestrita, do pensamento revolucionário.
Neste momento, lamento imensamente que qualquer ser humano seja remetido a esta página se quer saber sobre futebol.
Seria melhor se procurasse saber de futebol pelo Golaço, um blog com figurinha identificável logo de cara. E seria muito, muito mais facil se tivesse um desenho - como uma bola na rede - para mostrar na capa que ali se fala sobre futebol e não sobre questões por demais abstratas e de foro íntimo.
Pelo que me foi esclarecido a coisa vai melhorar. Vai evoluir. Amém.
Assim, quem aprecia da minha opinião, continuará a tê-la. Quando entrar no Banzeiro, saberá onde está metendo.
Se todos soubessem que o Banzeiro não tem nenhum desejo de autopromoção, pessoas pudicas e pouco afeitas à liberdade de expressão nem perderiam tempo clicando no CKV ou na cara gorda.
Ninguém ficaria frustrado. Nem constrangido. Pois é. Tem muita gente que fica constrangida ao se deparar com um blog como o Banzeiro.
Extremamente volátil, raivosamente bêbada, liberalmente estúpida, minha personalidade não deve nada a qualquer plano de entretenimento. Venda-se quem se acha capaz de lidar com o mercado. Isso eu nunca consegui e nem pretendo.
Vou parar por aqui e partir para as poesias e literatices. Senão vou falar muitíssima besteiras. Imagine só o que resta ao um solitário bêbado ledor de Hermann Hesse às 2h45 da manhã.
Bebi a água que restava no copo. Bastaram alguns minutos para que ambiente se tornasse sufocante. A água, já refém do mormaço, legitimava o buraco afligente no qual eu havia me metido. Derek entrou na sala com o braço esquerdo entrelaçado ao direito de Eliandra, pisando sólida e maquinalmente. Dir-se-ia uma marcha forçosamente dândi. Restou-me questionar em silêncio: por quê?
Fui ao encontro deles de mãos vazias. Meu semblante, provavelmente, não era dos melhores.
_ Vejo que se acertaram.
_ Sim, meu caro sonhador. Peguei a primeira que me deu bola – disse, sorrindo com o canto da boca num esgar de cumplicidade que pareceu encantar Eliandra.
_ Ainda bem que eu não perdi muito tempo com você, não é mesmo, Mister Corocoxó? A felicidade está em não se menosprezar por causa dos arrogantes desta vida.
_ Meu bem! Não seja deselegante com o dono da festa! Mesmo que ele mereça tapa na lata.
Passei os olhos pela sala com desalento. “Por que dar uma festa tão cheia de pompa? Para agradar os meus inimigos?”. Recobrei-me a tempo de não cometer uma indelicadeza.
_ Eliandra, exigir compreensão não significa ser arrogante. É justamente o oposto. Exijo porque sei que a compaixão de uma mulher tão bela como você é um fortificante espiritual. Mas agora vejo que me precipitei. Você não tem inteligência suficiente para eliminar esta poderosa tendência à futilidade e ao escárnio que a faz parecer tanto com uma prostituta orgulhosa.
_ Sei que você quis apenas provocar riso com sua observação sem pé nem cabeça – repreendeu-me Derek.
_ Certamente. Não surtiu o efeito desejado. Perdoem-me.
_ Está tudo bem, vamos comer e beber!
_ Está tudo bem, uma ova! Ele me ofendeu e eu exijo que a polícia seja informada.
_ O quê – indignou-se Derek, o centroavante titular do Osasco Futebol Clube. Talvez tenha razão! Podemos acabar com esta festa!
_ Todos estão aqui por um motivo, não é? Faz parte do jogo - provoquei. Quem perde? Quem ganha? Acho que é melhor descobrir sem a presença de policiais.
_ João está certo, Derek. É melhor nos divertirmos.
_ Isso, aproveitem a festa. Pensem nos motivos bons e alegres.
_ O principal motivo de freqüentar festas de smoking é lucrar no futuro. Gostaria de estar vendo um filmão no cinema - redarguiu Derek, visivelmente irritado.
Olhei com desinteresse o rosto de Eliandra. Era bonito como os rostos que adquirem uma espécie de serenidade artificial. Atraentes, porém, capazes de arruinar pessoas. Pedi licença e fui ao bar instalado no jardim.
Há muitos meios de se chegar a um objetivo. Qual seria, porém, o objetivo de quem observa o tempo como a indissolubilidade da existência? Por que pensar sobre o que se parece muito com uma tentativa inútil de dar sentido ao vaguear despropositado de uma observação perene em sua fugacidade? Sentei-me à mesa e olhei a figueira nova cujas folhas quase amarelecidas – já estavam prestes a cair - roçavam o canteiro verdejante no mesmo momento em que impediam os últimos raios de sol de serem apreciados por meus olhos.
Sinto que não preciso de dinheiro nenhum para alcançar a paz de espírito que tantos crentes almejam. Acostumei-me, no entanto, a pensar automaticamente em gastar nisto ou naquilo. Só por causa disso, sinto-me distante da verdade.
Tenho a sensação de não existir realmente. Sou pior que um andróide. Por que não estou aqui nem ali. Eu inexisto como pessoa. Sou um monte de carne ambulante que discorda da maioria das coisas que faz. Meus objetivos têm sido meras abstrações transformadas em realidade pela indústria do entretenimento.
_ O que está fazendo sozinho aqui, João?
_ Esperando. Esperando que algo aconteça nesta bosta.
_ E o que pode acontecer numa festa em que até os cães são revistados?
_ Tem razão. Já vou circular por aí. Obrigado, Múrcio.
_ Não há de quê, caro amigo!
Engraçado, quando estava ferrado até os dentes, ninguém me chamava de caro amigo. Era sempre um grunhido mal-humorado.
Só à noite me sentirei à vontade. Até lá, resta imaginar a eternidade como um salão de festas cheio de pessoas completamente diferentes de mim.
O Jardim Nova Itália está cada vez mais lindo. Quando retornei a Limeira, há 17 anos, não imaginava que fosse me adaptar tão bem a um bairro que chegou a passar pelo crivo da estereotipia. O antigo barracão de malha, do qual só restam alguns destroços, havia sido tingido com o sangue de um rapaz assassinado a marretadas no início dos anos 90.
Os rótulos, porém, foram derrubados pela alegria incondicional de uma comunidade irmanada fraternalmente.
Em pouco tempo fiz grandes amigos, virei técnico do time juvenil e aprendi a me espreguiçar na Praça "Valdir Salviatti".
A fala aveludada de seus moradores mais antigos está em consonância com o timbre desafiador dos mais jovens. As vozes se completam como feijão, arroz e o tempero de dona Luzia, mãe de Tales, Moisés, Alexandre, Cristiana (ou Cristina, como nos acostumamos a chamá-la) e Marlene.
Cansei de filar boia na casa de dona Luzia. De churrasco a feijoada. Mas também apreciei com frequência os dotes culinários de Gi, mãe dos camaradas Daniel e Rafael, ambos craques do Esporte Clube Nova Itália desde as divisões de base. Não posso deixar de mencionar ainda o rango de dona Jacira, com Reinaldo no comando da churrasqueira. Nem de elogiar a mãe e as irmãs de Monga Edson e Eduardo Du, que me fizeram delirar com os quitutes de fim de ano.
Além da boa comida, o Nova Itália sempre ofereceu mais encontros do que desencontros. Ambiente propício para uma conversa amena e aperitivos para bebericar ao som de um partido alto ou de melodias tão díspares quando a origem de cada novaitaliano. Eis o verdadeiro caldeirão do qual emana harmonia e diversão.
É verdade que o campo em que o EC Nova Itália mandava seus jogos desapareceu, esmagado pela fúria mercadológica. Mas o time no qual jogaram Jocão, Digão e Gilmar Fedô chegou à maturidade e fez dos outros gramados também o seu território.
Ganhamos, porém, o prédio da Receita Federal. Também a Câmara, o novo campus da Unicamp (o velho também é nosso), academias e punhado de bares bacanas. Há poucos dias, chegou uma choperia. Para completar o roteiro gastronômico e a bebezaina do bairro, há o simpático trailer do Moisés, cujos lanches atraem salivantes admiradores até de outras cidades.
O cotidiano no Nova Itália é sempre vivido com positividade. Não há silêncio absoluto, não há atmosfera de enfado. Nem por isso o velho Cridinho facilita o acesso aos coqueiros de seu quintal. "O domingo tá de sol, o domingo tá bonito, mas não mexe nos meus cocos não". Quem tem juízo não despreza o aviso. Cride costuma punir ladrões de coco verde com canções acompanhadas de uma velha sanfona.
Este é Neto Santana, conhecido como Netão. Netão vive há mais de 40 anos no Nova Itália, é torcedor do Santos, toma uma ração diária de gardenal, gosta de contar histórias, dorme às 19h e acorda às 5h todos os dias, não bebe, mas fuma com certo desespero, acredita que os hebreus estiveram antes na região de Minas Gerais para depois serem escravizados pelo egípcios. Netão adora a Praça "Valdir Salviatti".
Levantaram-se Everet e Pusty depois uma longa noite. Foi o chão frio de cimento que fez o corpo da garota vibrar novamente, em vez da mão úmida de Pusty a tocar seus seios com formidável destreza. Ela olhou surpreendida para baixo e, logo depois, com as mãos cruzadas no peito, como uma indefesa ninfeta, mirou o teto pardacento. O rosto delicado e rosado, então, tornara-se impassível e pálido, como se tivesse alma mercenária. Era o puro sapê do campo, seco e esticado como nas demais moradias daquela cidade estranha, que alterava o humor. Sentiu um calafrio ir do tornozelo ao pescoço e deixou os lábios se amolecerem como dois pedaços de carne batida.
Pusty se espreguiçou sorrindo como um adolescente.
_ Quem diria, hein?
Ela interpretou a pergunta como um desafio. Ou um canto de vitória. Depois de tanto tempo, o rústico misantropo havia conseguido dominá-la. Toda a ternura se fora com o amanhecer. Passara o efeito do álcool e das emulações amorosas. Restara a realidade dura e fria: ela não gostava daquele lugar.
_ Preciso ir pra casa.
_ Por quê? Não há nada lá! Seus pais estão de férias.
_ Preciso checar e-mails, ligar para minhas amigas, ver um pouco de televisão.
_ Não dá pra ficar flanando por algumas horas?
_ Pusty, não somos mais jovens.
O rapaz passou a vista no ambiente. Nada havia de triste ali. Apenas uma imponderável simplicidade. Das panelas de fundo preto ao gato estirado no parapeito da janela.
_ É um saco quando percebemos que nada há de sonho no depois de acordar.
_ Não me venha com suas frases desvinculadas da realidade.
Aos vinte e cinco anos Pusty se sentia velho. Cada vez mais, o amor lhe parece uma aventura regada a álcool e drogas. “Terei que viver chapado para acreditar que amo essa garota?”, perguntou à sombra fugidia da manhã que se desvencilhava do quarto bagunçado.
_ Não estamos num romance de D.H. Lawrence.
_ Isso é uma desculpa imbecil. Devia te despachar somente por ter preguiça de pensar com mais acuidade.
_ Não precisa. Eu vou por quero quero.
_ Dei de bandeja a desculpa da qual você precisava. Mas também posso me sustentar sem precisar descer ao nível das amebas.
_ Você me insulta porque te desafiei. Não faço parte dos seus caprichos.
_ Você precisava de proteção. Depois de um belo orgasmo. Agora que está satisfeita, você volta ao seu conto de fadas burguês ao qual chama de “realidade”.
_ Você é tão limitado quanto eu.
_ Pelo menos não me rendo ao conforto.
_ E o que há de mal nisso?
_ O único e grande mal que há nisso é a cegueira que ele produz. Que vem acompanhada de uma autoconfiança turbinada pelo dinheiro.
_ Não sou pessimista como você.
_ Tá bom, Everet. Se eu a faço se sentir plebéia, é melhor buscar o conforto de seu castelo.
_ Melhor do que não ter perspectivas.
_ Pode ser. Mas a questão principal não é esta. É saber se teremos peito pra aproveitar alguns dias de calmaria. E também se gostaríamos de viver numa boa, transando com tesão e se alimentando do que existir na penumbra da cozinha.
_ Podemos viver bem sem precisar assolados pelo fantasma da necessidade.
_ É disso que tem medo? Então é melhor que vá embora, mesmo. Não sou o tipo de homem que paparica mulher. Achei que a sinceridade de um amor fosse suficiente.
A Igreja Católica condena Saramago, a CNBB repreende Lula, monges budistas viajam na maionese, o Islã quer a morte de poetas e cartunistas.
A religião é mesmo uma grande merda.
Quem se mete nela passa a acreditar em coisas do arco da velha.
“Uma virgem dormia seminua na flor de seus quinze anos quando o espírito santo depositou sua semente no ventre da moça”. Antes mesmo de se casar com Maria, José já era um tremendo chifrudo. E o pior de tudo: foi Deus quem colocou nele uma peruca de touro!
Histórias de divindades que subverteram as leis da natureza que teriam sido criadas por elas mesmas existem aos montes. Fazem isso para quê? Mostrar poder? Por que raios um deus tem necessidade de auto-afirmação? E por que tem que destruir todos os outros mais fracos? De que Jeová tem medo? E de que material foi feito Maomé, este vagabundo chatíssimo que parece mais uma bicha enrustida? Maomé não passa de um babaca covarde que só quer resolver as querelas na base da espada.
As pessoas se comovem com as passagens bíblicas cheias de sofrimento. É o mesmo que se comover com a morte da mãe de Bambi.
Mas e as passagens em que há muita putaria, vinho e morte?
E os padres continuam a falar sobre desígnios misteriosos de Deus.
E os pastores continuam a manipular a opinião dos fiéis usando o morde e assopra do Velho e do Novo Testamento. “Deus é nervoso, mas pode ser manso”.
Tanta papagaiada e tanta gente vendendo a alma para se sentir confortável. Buscam a verdade, mas preferem acreditar em fantasias.
Fantasia por fantasia, prefiro ler os contos de Bukowski.
Quando eu lia a bíblia com a voracidade de um fanático tinha tantos pesadelos que precisa passar a noite orando.
Hoje só tenho pesadelos se começo a duvidar da minha falta de fé.
A fé só serve para tornar autoconfiantes seres incapazes de ter opinião própria e aumentar a arrogância naturalmente existente na personalidades mesquinhas.
Enfim, quem tem fé é um pé no saco!
E pau no cu de Deus, de Maomé e de Jesus Cristo, este gaiato que comeu Maria Madalena e depois a abandonou para ir morar na mansão do papai.